Verão, cupim e ódio

Agora o verão chegou e junto com ele vieram os cupins. Eu chego do trabalho à noite e vejo essas coisas nojentas sem as asas, rastejando no chão do apartamento. Eles invadem a casa por volta das seis da tarde. Eu não sei exatamente qual é o ciclo de vida deles, mas desconfio que eles entram por frestas ou atravessam paredes. Devem ficar voando atrás de luz e depois de algum tempo aterrisam no chão sem seus aparatos de voo. O que me intriga é o que os atrai, uma vez que não tem luz em casa quando eu não estou. Do que eles estão atrás? O que além de me infernizar essas coisas desejam? Eu abro os armários e cai aquela farofa da madeira que eles comeram. Às vezes é um montinho no chão, em algum canto. Eu pego o aspirador enfurecida. Monto a mangueira no aparelho, e vários tubos azuis que se conectam a mangueira e uns aos outros até surgir um longo equipamento. É um processo difícil, e algumas vezes até doloroso. Experimenta prender a ponta do dedo entre um cano e outro. E o nervosismo e a fúria dificultam a coordenação, parece que os tubos teimam em não encaixar enquanto os cupins provavelmente riem da minha cara. Finalmente eu conecto o cabo de força na tomada e piso no botão mágico. O som do motor do aspirador parece solidarizar com o meu ódio. O meu coração provavelmente estaria fazendo o mesmo barulho, se pudesse. Eu passo o bico da mangueira fazendo tal pressão no chão com a ilusão de que isso vai lhes causar alguma dor. Há instantes durante o processo nos quais penso se mesmo depois de sugados eles continuam vivos dentro do aspirador fazendo uma festa e esperando o momento certo para de lá saírem e exercerem vingaça – rindo mais uma vez da minha cara. Mas o prazer se arrebata-los é sempre maior e logo esqueço que eles podem se voltar contra mim. Desmonto e guardo o aspirador calmamente dentro da caixa e depois no armário. Tomo banho, me alimento, fumo um cigarro, coloco meu pijama e me acomodo na cama para a ler um livro. E é nesse momento que descubro um deles passeando pelo chão do quarto. Parece uma lesma rastejando. Eu tento ignorar, continuar com a minha leitura. Volto os olhos para as linhas e mais linhas de palavras. Mas o cupim não sai do meu pensamento. E então ele, um único ser, vence a batalha da gangue que eu exterminei. Sou obrigada a levantar da cama para mata-lo. Não gosto de correr o risco de um deles andar sobre a minha pele de madrugada.