Vai tomar no cu

Para alguns é ofensa, mas para a grande maioria eu considero que o ‘vai tomar no cu’ pode ser libertador. Nem faz mesmo tanta diferença se o interlocutor recebeu a mensagem – a direta e todo o argumento implícito no conjunto de quatro palavras.

Incrédula, uma pessoa pode soltar um sonoro ‘ah, vai tomar no cu’ no lugar de um ‘não é possível!’.

Muitas vezes, o ‘vai tomar no cu’ é só um ‘vai tomar no cu’.

O lance é que a sonoridade do cu gera um alerta. Fica ecoando ali: ‘u… u…u…’, às vezes por horas. Semanas, anos…

Sem titubear, enchi os pulmões de ar – o estômago de coragem e a cara de pau – e dei meu grito de liberdade. Com todo o respeito. Estão todos convidados.

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Sofá, vinho, café, conversa.

A mocinha nem é tão mocinha assim e o mocinho que só se interessava por mocinhas escolheu a mocinha que já tinha até passado da idade de correr com os lobos. O filme em nada a identificava, mas prendeu a atenção da mocinha da vida real. Apenas não o suficiente para detê-la de notar o conjunto de 6 pequenas manchas no sofá. Uma cor estranha, um tom puxando para o marrom, com tamanhos e formas diferentes.

Imediatamente o enredo era outro. Outros. As manchas, que agora eram donas da sua atenção por completo, a lembraram do momento que aquele rapaz a interrompeu no meio de uma história interessantíssima sobre sua viagem a Londres – devia ser essa, que outras tão interessantes teria ela para contar? – com aquela expressão peculiar de alguém que sabe que fez merda, segurando a taça em uma das mãos e lambendo os dedos para conter o vinho que ainda escorria. Tinto. Bronca. Seguida de mais uma história, algumas risadas e algumas horas de sexo.

Ela sorriu: “Belo enredo para uma peça de teatro, esse sofá”. O assento retrátil oferece real perigo à vida uma vez que, ao se apoiarem no lugar errado, o sofá tombará levando os dois ao chão, possivelmente até cairá sobre os corpos. Mas esse medo não a impediu de se deixar continuar sendo beijada até que o sofá, como que por encanto, voltasse sozinho ao seu lugar, e que ela então se percebesse novamente sobre ele – e sobre o homem que a derrubou no chão. Não, a culpa era do sofá.

Quantos primeiros beijos o sofá já presenciou? Quantas histórias já ouviu e mais, quantas já pode contar?

Tem aquela do rapaz de coração partido, que sabia que ela não conseguia decidir onde colocá-lo no apartamento novo tão pequeno. E mesmo que a decisão tenha sido só dela, outro rapaz desfrutou do conforto de poder enterrar a cabeça nas almofadas macias do encosto – e nas de seu colo também.

Verdade que nem só de sacanagem e amor vive o sofá. Cinza. Clarinho, quase poderia ser prateado. A preocupação era ter uma capa. Mesmo sabendo que os amigos são adultos, não custa manter sua cor imaculada. “Não toma café sentada no sofá!”, “Por favor, se for fumar fique em pé”, “Tá comendo bolacha no sofá? Toma, tem um pratinho aqui…”. Mas a mocinha sabia os limites, sempre tomava cuidado, então usava o sofá quase que inadvertidamente, para qualquer atividade. E na presença de todos aqueles que foram privados do conforto do sofá por causa da sua neurose, aquela xícara, daquele café solúvel horrível saltou de sua mão quase que como se tivesse vida própria. E lá se foi a virgindade do móvel.

E o que foi mesmo que levou a mocinha a fazer as unhas sentada no sofá? A mancha do esmalte ‘rosa chiclete’ foi escondida na almofada virada do lado contrário. Mas eis que ela resurge, depois da nova faxineira deixar o ferro de passar roupa esquentando, apoiado na tal almofada. E agora, qual mancha mais importante esconder? Ou mostrar? Qual a melhor história por trás dela? Vai-se trocando o lado conforme o momento…

Tem também a mancha enorme, que ocupa quase todo o assento direito do sofá, cuja procedência já ficou esquecida. Mas a mocinha-que-não -é-mais-tão-mocinha-assim no filme chora. Chora um dia e uma noite inteiros e o dia seguinte também. Porque o mocinho com problemas de autoestima não a quis. E a mocinha da vida real volta para a história de mentira. O que a leva mais uma vez a devanear sobre as manchas em seu sofá. Quantas histórias suas próprias amigas dividiram com ela sobre esse tipo de mocinho. Quantas nas quais ela foi personagem?

Pensa que se um dia se mudar, pode deixar o sofá para o próximo morador, com uma carta escondida sob uma almofada, com cada uma das histórias que se lembra de ter vivido ali. Mas que agora estava exausta, ia aproveitar o final de tarde – e do filme – e tirar uma pestana sobre essas histórias todas, pegar fôlego para proporcionar-lhe mais algumas. Ao sofá. Talvez.