Enquanto você não estava

minha unha quebrou – o msn acabou – as flores morreram – chorei com o filme – trabalhei com os pés molhados por causa de uma poça no lugar errado – entrevistei um ídolo – meu cabelo ora obedeceu ora não – li um livro – cheguei atrasada – xinguei o motorista do ônibus – a lâmpada queimou – quis morrer de ressaca – comi um petit gateau – fez noite e dia e dia e noite – dancei até os pés doerem – dormi um dia inteiro – atraí olhares distraídos  – esqueci da consulta médica –  o perfume acabou – comprei um sapato novo – menti para uma amiga se sentir melhor – fotografei um arco-íris – o botão caiu – ri da high society – fiquei amiga do taxista – fugi de uma barata – senti o cheiro de amaciante no lençol e dividi cada uma dessas coisas com você.

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Eu, por você.

Você não sabe, não teria como saber o efeito que tem causado em mim. É uma viagem por questões sexuais, intelectuais e emocionais que são só minhas, mas a partir de você. E claro, tudo já estava latente em mim. Foi esse o medo que senti de você quando te vi a primeira vez, que me obrigou a fazer uma piada idiota só pra ter o que falar. Só pra ver se você me notava. Foi esse o medo que percorreu tudo aqui dentro quando eu percebi que seus olhos, nariz e boca tão grandes não eram pra enxergar, cheirar ou comer melhor. Mas que eles aumentavam de acordo com o desejo que eu inspirava em você, desejo que era só seu, assim como essa viagem é só minha. Desejo ao qual eu respondia instintivamente, sem o menor domínio da razão. Eu não estava preparada. Essas coisas continuaram aqui. Todas. Precisando sair, sem encontrar caminho. Agora eu fui buscar você. De novo. Agora eu estou pronta pra viver seja lá o que vier disso. Dessa troca que você talvez nem entenda mesmo, pq eu não te falo. Elas estão sendo vomitadas em textos e conversas extensas, complexas e muito especiais. Porque apesar de nós, e do que aconteceu, tem eu. Tem tudo meu aqui dentro, coisas acontecendo racionalmente, apesar da vontade que eu tenho de que tudo fosse visceral, passional. É uma mistura absurda de sensações sem nenhuma confusão.
O mais perfeito pra mim, é que não é você o instrumento dessa viagem. Sou eu mesma. É tudo meu, Eu queria poder entregá-las a você, mas você tem as suas próprias descobertas. Que eu também queria que você me desse…
E eu não sei quem é você. Mas eu sei exatamente quem você é. Mais que isso, eu sei exatamente quem você é na minha história. Eu poderia não te ver, não saber mais de você. E o seu lugar na minha vida seria o mesmo. é um amor, mas é “um amor”. E tudo isso só é possível porque você é esse você. Esse que é a mistura do homem que eu vi, pelo qual eu me apaixonei inocentemente, depois do homem que virou uma espécie de mito nas conversas de mesa de bar com as amigas e depois o homem que você trouxe consigo nesse reencontro. Agora tem mais um, que é o homem de depois desse reencontro.
Mas o que tem vazado de tudo isso, na verdade, é a percepção sobre mim mesma. Que a cada novo diálogo ou texto ou devaneio ou sonho ou inspiração me surpreende mais.

Espelho

Aí um dia você percebe. Qualquer coisa. E acha que isso, essa é a chave, a resposta. SO –LU-ÇÃO. Simples, né? Então tá, vamos às investigações.

– Tive um momento de lucidez. Agora preciso que você me diga se estou louca.

– Claro! O que foi?

– Eu descobri que a imagem, a realidade e o discurso se confundem. Por partes: a partir da constatação da realidade, reavalia-se a imagem e muda-se o discurso – para que a imagem mude a realidade. Ou a realidade gera o discurso que rege a imagem. A santíssima trindade! Agora preciso determinar disso o que é loucura. O que gera mais e mais confitos . É a minha vida que está em jogo.

– Não, sua vida já está sendo jogada há muito tempo.

Quem espera… sempre alcança?

Esperar por tudo é o que todo mundo quer continuar fazendo. A ausência do desejo dá desespero. Desesperança dá desespero. É a esperança que move. Esperar um amor. Depois que encontra o amor, esperar que o objeto amado se enquadre. E como provavelmente ele nunca se enquadra, ou você que não se enquadra, continua esperando que alguma coisa mude. E assim perpetua a relação. Esperar pelo sucesso profissional. E sim, depois de conseguir o emrpego pelo qual se esperou, passa a esperar uma promoção. Passa a esperar um aumento de salário. Tem a espera pelo primeiro imóvel. Uma grande amiga chegou lá. Mas a esperança pelo próximo – e maior, e mais bonito – já era parte do desejo pelo primeiro.

Já diziam… o melhor da festa é esperar por ela. A festa é boa, claro. Mas só porque lá, é possível ficar olhando para a porta esperando para ver quem vai entrar. Depois que a festa acaba, esperar pela publicação das fotos. Enquanto saboreia as fotos, esperar pelas próximas festas. Ou a angústia da espera pelo próximo dia útil e a maldita ida para o trabalho.

Será possível parar de esperar? Esperança de emagrecer, de ficar mais bonito. Aí faz regime, compra roupas e produtos de beleza. Ou será que essa faz parte da esperança de encontrar o amor? Ou o trabalho? As esperanças podem se confundir, às vezes…

Eu agora estou esperando dormir. Porque espero acordar cedo amanhã. Para um teste que espero que me traga um trabalho. Um trabalho que me faz esperar dinheiro. Dinheiro que espero que dê para comprar roupas e produtos de beleza. Que por sua vez, espero que me ajudem a encontrar o amor. E quem sabe com o amor eu juntes as esperanças e compre o primeiro imóvel. E aí esperar mais e mais.

A esperança pela salvação. Ou a salvação é a esperança? E o que a esperança tem a ver com insatifasção?

Assim ou assado e ponto final.

Isso eu como, aquilo não. Essa música eu danço, aquela eu saboreio. Café na padoca, só nos dias de trabalho. Nos dias de folga prefiro coar em casa. Se for para comer sanduiche caseiro, eu mesma faço. Caso contrário, como aquele quase plastificado, feito em série na lanchonete famosa. Sapatos: baixos só servem os coloridos; altos precisam ser caros (de melhor qualidade) e tênis é coisa de menino. Às terças, vem a faxineira. Se não der nessa, fica para a próxima. Mas numa lava, na outra passa. Tem o ciclo certo das coisas. Melhor não chamar todo mundo ao mesmo tempo. Venham hoje esse, aquele e o outro. Com os demais combino outro dia. Assim garanto a boa convivência (deles?). Se o abajour está aceso, não precisa da outra lâmpada.Título de texto não tem pontuação.O meu signo é a licença poética para meus comportamentos insensatos. Vamos por este caminho porque é o que eu conheço. O importante é chegar lá. Sexo sem enciclopédia não dá. Mas se não tiver outro jeito, que seja apenas sexo. Meus mecanismos de defesa estão aí para…me defender!!! “Eu quero, eu quero, eu quero.” – repito incansavelmente para não ter que pensar se preciso.